Lovers,
Walking to and fro,
Everyone has someone,
And a place to go.
[...]
Listen
Laughter everywhere,
Hear it
Life is in the air,
As the night comes
And the town awaits,
Sound o' children calling
And the squeal of brakes,
Music
But a lonely sound
When you can't help wond'ring
Where do I belong
Nina Simone - Night song
Estou passando por mil coisas nos últimos meses, de verdade. Estou "prestes" a sair da casa da minha mãe pra uma própria, pela primeira vez. Não estou nada nervosa com isso, e acho que talvez já tenha passado da fase de frustração, quando eu percebi que as coisas não iam ser nada simples, mesmo com tudo certo pra acontecer. Tudo exige muito movimento, e eu sempre fui uma pessoa de poucos movimentos. Na verdade, nos últimos tempos, tenho pensado em mim e estranhado a forma como, há muito tempo, eu entrei em uma paranóia de aproveitar a vida e dar o meu máximo pra me tornar o que eu queria. O problema é que eu estou vendo que negar a si mesmo o tempo todo custa muito.
Na verdade, antes eu não via meus desejos como negações de mim mesma. Sempre achei que estava fazendo o que devia fazer, ter uma profissão, participar de círculos sociais, etc. O problema é que eu não tenho conseguido fazer isso, e não tenho certeza se é pelas coisas não darem certo comigo.
Eu esqueço que tenho depressão crônica e que sou, no geral, uma pessoa considerada muito esquisita. Esqueço porque estou sempre tentando esquecer, e me tornar o que não sou. A visão de que o que eu sou naturalmente é esquisita e ruim se impregnou em mim de uma forma que realmente não vejo nenhuma solução a curto ou longo prazo. Consigo me aceitar quando estou sozinha, mas qualquer aparição de outra pessoa parece ligar algo em mim onde eu imediatamente me torno o que eu acho que tenho que ser nesses espaços. E, ainda assim, me vejo muito colocada de lado.
A coisa que mais me dói, na minha vida inteira talvez, seja o fato de que eu sinto que estou sempre sendo rejeitada e esquecida por todo mundo. Desde que me formei, estou tão absolutamente solitária que às vezes até consigo aceitar que isso é a vida adulta. Mas não consigo e não quero acreditar nisso.
Ao mesmo tempo, qualquer mínima possibilidade de contato, de voltar a falar com "amizades" antigas, me reaproximar de alguém, me deixa em uma animação ridícula. Fico extremamente feliz e nervosa, o que demonstra que eu não sou, de forma alguma, uma pessoa autossuficiente ou feliz com a solidão. Pelo contrário, entendo que a vida humana só tem sentido em conjunto, e isso tem guiado meus pensamentos de certa forma.
Na minha última sessão de análise, falei sobre sentir que as coisas só têm sentido pra mim no coletivo, e apesar de estar falando sobre profissão, acho que isso diz de absolutamente tudo na minha vida. O que faz p fato de eu me isolar desde a infância um fato muito curioso.
Realmente não consigo entender muito isso. Sei que fui maltratada e mal recebida na maioria dos lugares da minha infância. Sei que meus pais nunca deram base emocional de carinho ou aprovação, e que me criaram em uma dinâmica de reprovação muito forte. Sei que fui amassada pelo peso das obrigações e tive isso imposto a mim como único objetivo possível. Mas ainda assim, não entendo minha dificuldade em estar com os outros sendo eu mesma. Pelo menos, não entendo a persistência disso depois de já alcançar conscientemente algumas causas importantes.
Acho que ainda preciso elaborar muita coisa, mas pensar sobre minha vida social têm sido meu maior sofrimento nos últimos anos, e sei disso. Queria poder existir sem me sentir um completo estorvo pra todas as pessoas. Estou aprendendo com os anos, a criar um espaço para mim mesma. O problema, é que tenho descoberto que quero participar do espaço de outros, estar com as pessoas, trocar e produzir interações. E ver cada tentativa sendo frustrada é muito, muito doloroso.